Nan Goldin, uma descoberta inesperada

Berlim, 27 de fevereiro

“Nan Goldin está em exposição na galeria Neue National”, diz-me a minha amiga. Não conheço muito bem a Nan Goldin, já vi algumas fotos, mas nunca vi as suas obras, no entanto, finjo que sei. Respondo que é fantástico; só me resta um dia para passear em Berlim, por isso, porque não dar uma vista de olhos? Pelos vistos, vale a pena, segundo ela.

Mais tarde, chego a essa famosa galeria; de qualquer forma, estava na minha lista. O meu namorado tinha-me dito que a arquitetura deste edifício era interessante de ver e, de facto, não fiquei desapontada.

É gigantesco; observo alguns detalhes que poderia fotografar, mas, assim que me viro, ali está. À minha frente, encontram-se três enormes edifícios octogonais cobertos por tecidos de feltro preto que parecem lã. Intrigada, apresso-me para observar mais de perto, mas sou parada; pelos vistos, é preciso comprar os bilhetes no piso inferior e depois subir. Um pouco estúpido, isto aumenta demasiado o suspense. Compro o bilhete e volto a subir; passo por um quadro de Warhol pelo caminho.

Entro no espaço de exposição e o tempo para. Entro num dos octógonos; este chama-se “A balada da dependência sexual”. Dou por mim no escuro, no meio de um longo corredor salpicado de cortinas de ambos os lados; aliás, reparo que, ao tocar nesta cortina, penso: é o mesmo material que o exterior.

De repente, ouço música; essa, conheço, é Aznavour. Tento perceber como chegar até ela, mas não sei bem por onde devo passar, então decido arriscar. Aterro numa sala com pessoas sentadas em bancos viradas para um ecrã gigante; creio que é um projetor que passa o vídeo e, ali, vejo fotos a passar. É uma espécie de diaporama à moda antiga, só que, em vez de ver as férias da tua tia Natália, vês criaturas sublimes. A sua aparição é suficientemente longa para captar a emoção de cada retrato, mas não o suficiente para as contemplar, infelizmente. Cruzo o olhar dessas criaturas; deduzo, pela composição e pelo objeto de cada obra, que se trata de criaturas da noite, espécimes embriagadas e embriagantes, feridas, atordoadas, por vezes, pelo peso da vida.

Estas criaturas comovem-me; têm tanto amor para oferecer, tanta alegria para partilhar, mas à medida que avanço na apresentação, a música torna-se mais sombria e percebo que algumas destas criaturas não sobreviverão. Compreendo agora que o octógono é, na verdade, uma bolha, uma parte da vida de Nan Goldin que se abre durante 41 minutos e 52 segundos.

É no momento em que saio do octógono que começo a ler a descrição. Estas famosas belas criaturas eram, e para alguns continuam a ser, amigos e amantes de Nan Goldin na Nova Iorque dos anos 80. Como descreve a artista: «Toda a minha comunidade foi dizimada pela SIDA.» É por isso que estas belas criaturas não sobreviveram; mesmo sem nunca as ter conhecido, esta homenagem deixa-me com vontade de recuar no tempo para as ver dançar uma última vez.

Depois deste choque, continuo o meu percurso. Entro numa segunda bolha, depois três, continuando até à última: a sexta. Nunca leio as descrições no início das exposições; prefiro lê-las depois, quando já recebi uma primeira vaga para compreender a segunda. Descobri: *Sister, Saints and Sibyls*, que me comoveu; *The Other Side*, onde senti amor; *Memory Lost*, com compaixão e um pouco de compreensão; *Sirens*, uma obra por si só, uma homenagem que quero voltar a ver no cinema; *Fire Leap*, tocante e reconfortante. Confesso que não as vi por ordem.

Perdi-me nestas bolhas e descobri quem era Goldin, mas por dentro. Descobri as suas dores, as suas alegrias, os seus tormentos, as suas dependências, a sua família, os seus amigos, a sua vida. Eu, que não conhecia muito bem a autora, fiquei servida; descasquei-a delicadamente, como um ovo cozido que não queremos partir.

A dada altura, decidi sentar-me num banco fora das bolhas e contemplar, observar a emoção no rosto dos outros, que também testemunhavam esse *spleen*. Estávamos todos "quebrados", mas no bom sentido. Foi a primeira vez que assisti a uma exposição tão imersiva, em que sentes, compreendes, te ris e choras com a autora ao mesmo tempo. Parabéns por esta obra-prima.

Agora posso dizer que sei quem é Nan Goldin.

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